sábado, 27 de maio de 2017

Crítica: Corra! (2017)


GUILHERME W. MACHADO

Se o dito comum anuncia que é tênue a linha que separa tragédia e comédia, o que surpreende não são filmes como Corra! e sim o fato de não haver muitos outros [competentes] exemplos de terror com pegada cômica. A estreia na direção de Jordan Peele – pronto para ser precocemente anunciado como novo gênio, uma síndrome bem recorrente ultimamente –, se por um lado impressiona pela solidez, também não deixa de revelar uma carência no público atual (e nesse mote também pode ser incluída boa parte da crítica), que se agarra a qualquer sinal de esperança num gênero banalizado. Todo ano um filme é anunciado “o melhor terror dos últimos anos”, em 2015 foi It Follows [2014], em 2016 foi A Bruxa [2015], e em 2017 é Corra!.


Por outro lado, Corra! é realmente um produto interessante no cinema de gênero. Se Stranger Things provou na televisão que os anos 80 estão em moda, o longa-metragem em questão é quem o fez no cinema. O filme pode passar-se nos tempos atuais, mas há um válido resgate dos cacoetes de uma época consagrada nesse gênero em particular, requentando toda uma ambientação que o tempo comprovou forte e a embrulhando numa série de questões “do momento”, conferindo o grau de seriedade de conteúdo exigido pelo público moderno. O cenário dos subúrbios americanos, a família interiorana, a mistura de ficção-científica com terror, as alusões neo-nazistas, plots mirabolantes, o protagonismo de um casal jovem... São todos elementos renascentistas de uma época áurea do terror americano (que, para ser franco, engloba também os anos 70) resgatada com louvável competência por Peele.
Mas mais interessante mesmo em Corra! é a forma como o filme constantemente alimenta-se do nosso poder de antecipação. A atmosfera de tensão é muito bem construída porque essa vem justamente da capacidade do público – já há muito acostumado, mesmo que inconscientemente, com todos indícios tradicionalmente oferecidos pelos thrillers de que algo está prestes a dar errado – de prever o que está para acontecer. Peele não encontra nenhuma dificuldade em estabelecer e manter o desconforto causado pelas estranhices do ambiente que trabalha, provocando constantemente nossa imaginação (que é onde se encontra a matéria prima para o horror). Para isso ele faz uso franco de uma abundante reciclagem de clichês, seja para criar uma atmosfera de tensão, momentos cômicos, ou até com propostas mais objetivas, como na última cena [SPOILERS adiante], em que vemos o carro de patrulha chegar e imediatamente tememos pelo futuro do protagonista, assumindo naturalmente que é mais provável que o policial acredite na moça branca do que no jovem negro. Cena que melhor ilustra o tema central do filme: o racismo só fez a transição do explícito para o velado, mas segue enraizado na sociedade contemporânea. [fim dos SPOILERS]

Desse imaginário popular que Peele se alimenta. Corra! não deixa de ser uma fábula (em forma de pesadelo) que materializa, de forma hiperbolizada, as justificáveis paranoias de um jovem negro prestes a conhecer a família de sua namorada branca de classe média alta. É nesse antro de desconfianças (do protagonista, do guarda de trânsito, do amigo cauteloso...) que se constrói o discurso do filme, e sua metáfora nada sutil do cenário sócio-político estadunidense pós-eleições. Curioso, entretanto, que esse enredo seja capaz de se comunicar com um público bem mais amplo do que aquele que representa. Isso ocorre pelo simples fato de compreender que, mesmo aqueles que não sofrem do problema, ou inclusive aqueles que passivamente fazem parte dele, são capazes de apreciar a situação quando ela lhes é apresentada, ainda que em geral não sejam capazes de percebê-la (muito menos de evita-la) nas suas vidas cotidianas.

Não há nada na vida que seja imune à magia de um timing correto, e Corra! não poderia ter encontrado melhor ocasião para seu sucesso. E, considerando a consciência do material específico, é um mérito que deve ser dado a Jordan Peele, por estar atento ao cenário atual de seu país e traduzi-lo oportunamente. Por outro lado, é um filme perfeito para esse primeiro semestre de 2017, e são poucos os espectadores que não tirarão satisfação dele, mas justamente por se alimentar desse momento específico que fica a dúvida do quanto o tempo será benevolente a ele. Sei que é difícil não cair na tentação do que Mourlet chamava de “descobrir uma obra-prima por semana”, mas até o grande crítico francês errou na sua época ao apostar que o tempo favoreceria Losey, Preminger Cottafavi, Don Weis ou Walsh em contraposição a Hitchcock, Bergman, Welles, Visconti ou Antonioni. Hoje sabemos melhor, mas não sobre o amanhã.

  NOTA (7.5/10):

Nenhum comentário:

Postar um comentário